Sinto que a maturidade sobre mim abate
seu cajado pesado. Seios, coxas, quadris…
Um questionamento maior de tudo
e a ânsia por novas descobertas.
Escreverei sonetos de infância?
Darei aos outros a ilusão de contentamento?
Serei uma louca? uma mentirosa?
Acreditarei no que pregam os padres? Farei piada dos partidos?
Sempre suspeitei a dúvida em mim
Ainda agora me atormenta.
Hoje me encontro só. A rebeldia salta
de minha vida, para renová-la.
Lá onde não chegou minha ironia,
entre pobres de rosto carregado,
resides, explicação de minha vida,
como roupas estendidas no varal.
As aventuras de multiplicaram:
viagens, furtos, altos amores,
o medo, agora cristal frio,
a melancolia, amada e repelida,
e tanta indecisão numa fronteira,
entre paixões, dois sapatos.
Todo esse esforço para fazer um sinal
que de tão frágil nunca se modela
e fical altiva, zona de desejos
arrombada por príncipes saqueadores
Mas demora o tempo, e vem a idéia de futuro
visitar-me na curva de uma rua
Vem o tédio, e me penetra
subitamente, dentro do cinema
E as idéias escorrem do pescoço,
de política, música, arte;
enroscam-se no sono e resistem
à busca de pupila que as reflita.
E após as ideias vem o tempo
trazer novo sortimento de conceitos,
até que, exaurida, me recuso
e não saiba se a vida é ou vai ser.
Que confusão de coisas à luz da aurora!
Que riqueza! sem préstimo, é verdade.
Bom seria juntá-las
num todo sábio, posto que sensível:
um descanso, um negrume, uma tristeza
baixando sobre o peito despojado.
E já era o furor dos novos anos
a renúncia às coisas que elegeu,
mais um achado sem dor, uma fusão
tal uma inteligência do universo,
ganhado com açúcar, molares e joelhos ralados.